Amar sem máscaras

J. Richards

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 
«Assim como o Pai Me amou,  também Eu vos amei. 
Permanecei no meu amor.»

Na linha do que ouvimos na liturgia do passado Domingo, em que Jesus, usando a imagem da vide, exortava a permanecer unidos a ele, hoje este permanecer não é apenas um permanecer estático, mas um permanecer no amor. É sobre o amor que quero partilhar este domingo e que serve, desde já, para uma meditação mais alargada para toda a semana. 

Muita gente pensa que o amor é coisa de casais, de namorados ou de esposos, mas o amor é um mandamento para todos. Sim, para todos! Ninguém está excluído do amor de Deus, ninguém está à margem. 

No Renascimento houve uma mudança de paradigma ao ser descoberta a perspectiva no mundo das artes. O Homem tornou-se, assim, um mero observador, vendo a sua perspectiva e não participa no mundo e na história. É um observador! Ainda, hoje, há pessoas que apontam esta característica  como principal e dizem: «Sou um bom observador!». 

Não temos que ser bons observadores, temos que ser bons participantes, porque o Mundo, a vida, a história diz-nos respeito e não podemos ficar alienados dela, como observadores que treinam a sua perspectiva, mas ficam estáticos, imóveis, alheios a tudo e a todos!

Como dizia, o Evangelho não quer que permaneçamos estáticos, mas que punhamos mãos à obra e que sejamos participantes. Tal como dizia o Papa, no Chile, aos jovens: «para que se sintam e sejam protagonistas no coração da Igreja». 

Esta participação no amor é um desafio: geralmente amamos aqueles que se dão bem connosco, aqueles que escolhemos como companheiros do nosso caminho. Estamos enganados a pensar assim e tomamos o amor como algo que é nosso, quando este amor é dom. Aqui se distingue o amor humano (o nosso) e o amor divino (o de Cristo), tal como dizia Santo Agostinho, no De Trinitate. É que o nosso amor é um amor retributivo (amamos para que sejamos amados) e o de Deus é um amor universal (ama porque é bom amar). 

Deste amor universal nasce a amizade verdadeira. Esta amizade não é baseada no interesse, mas no dom e é esta a amizade que Deus quer que construamos uns com os outros: uma amizade que é construída no desinteresse, fora do calculismo retributivo com que tantas vezes nos vemos envolvidos. 

E claro que nós dizemos ter muitos amigos e até, com as redes sociais, todos se chamam amigos e ouve-se dizer: «Temo 450 amigos no Facebook» e pergunto (e pergunto-me!): Quantos desses amigos são verdadeiramente teus amigos? Amigos no sentido que Jesus diz no Evangelho de hoje: «Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi a meu Pai»

Isto leva-nos a um outro ponto de reflexão: Partilhamos a nossa vida? Será que aqueles que consideramos nossos amigos são parte da minha vida e com eles a partilho? Será que estes a quem eu chamo amigos não passam de 'servos'? 

Quantas vezes nós somos levados pelo sincretismo, pelo segredo, por uma vida em parte partilhada, ou seja, só partilhamos o que queremos, só partilhamos o que é bom, só partilhamos o que nos ajuda a engrandecer a nossa personalidade? Mas a vida não é feita, também, de fragilidades, de tristezas, de angústias, de coisas menos boas? E porque não as partilhamos?

Sim, a nossa sociedade educa-nos para a criação de uma imagem (aparente) do que é bom, tornando, tantas vezes, a nossa falsa, mesquinha, secreta, oculta... Contudo, a vida deve ser clara, verdadeira, honesta, transparente! 

Podemos criar uma boa imagem (aparente) diante dos homens, mas não enganamos facilmente a Deus. Deus não se deixa enganar por este tipo de vidas, porque nos conhece, porque sabe o que verdadeiramente somos. Para Ele não há máscaras, não há ilusões, é tudo claro! 

A verdadeira amizade é composta de tudo, de bons e maus momentos, de momentos de glória e de abismo, de momentos de dúvida e de certeza, de momentos tristes e alegres e isso é que deve ser partilhado verdadeiramente nas nossas amizades. Porquê? Porque elas advêm deste dom, que é o Amor. 

Já o partilhei aqui algumas vezes, mas penso não ser demais recordar que, como diz o filósofo, «os amigos vêem-se em dois momentos: na prosperidade e na adversidade. Na prosperidade, vemos a quantidade; na adversidade, vemos a qualidade». 

Porém, esta amizade vem do sentimento que não fomos nós que escolhemos aqueles que são nossos amigos, mas do sentimento que foi a vida que nos juntou e que é, a partir dela, que a amizade se constrói. Amar não é um dom nosso, mas um dom de Deus e, por isso, é que amar é próprio do ser humano. 

Ora, na vida em Cristo também é assim: não fomos que escolhemos amar a Deus, mas foi Ele mesmo que nos amou desde o início e que constantemente nos ama, mesmo conhecendo a nossa pequenez, mesmo conhecendo a nossa fragilidade, mesmo conhecendo as nossas imperfeições. Ele ama!

Penso que ainda há muito caminho a fazer para tornar o nosso amor num amor universal, capaz de amar sem medidas, sem escolhas, mas simplesmente amar e deixar-se amar ou, tal como dizia Santo Agostinho: «Ama e faz o que quiseres!». 

E, para terminar, penso na última frase do Evangelho em que Jesus nos dá o seu mandamento: «O que vos mando é que vos ameis uns aos outros». Atenção: Jesus não nos manda gostar, manda-nos amar. Tarefa difícil? Pois claro! Amar não é fácil, é preciso saber amar e aceitar o outro, mesmo que o amor que damos ao outro não seja retribuído, pelo menos no imediato. 

«O que vos mando é que vos ameis uns aos outros»

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Por fim, fora já do contexto desta publicação, desejar um feliz dia da Mãe a todas aquelas que já o são e aquelas que se prepararam para o ser. 

Que este dom da maternidade seja uma concretização do amor que Deus nos dá. 

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