Necessitados do Perdão

«Que é mais fácil dizer: ‘Os teus pecados estão perdoados’ ou ‘Levanta-te e anda’?
Pois bem, para saberdes que o Filho do homem tem na terra o poder de perdoar os pecados, Eu te ordeno — disse Ele ao paralítico — levanta-te, toma a tua enxerga e vai para casa».
Logo ele se levantou à vista de todos, tomou a enxerga em que estivera deitado 
e foi para casa, dando glória a Deus.
Ficaram todos muito admirados e davam glória a Deus; 
e, cheios de temor, diziam: «Hoje vimos maravilhas».
(Lucas 5,17-26)

Dizem que S. Lucas é o evangelista da misericórdia e, sem dúvida que o ano da Misericórdia conjuga com este evangelista. E o texto do Evangelho de hoje é reflexo disso. Mas, hoje, a Igreja celebra uma grande figura da misericórdia, isto é, Santo Ambrósio de Milão.

O perdão é mais que um sentimento é uma atitude, atitude essa que vamos cultivando ao longo da vida. Essa atitude ajuda-nos a nós, que nos livramos de mágoas e de feridas, mas é bom para os outros porque libertamos os irmãos do ressentimento ou, como diz o espanhol, 'del remordimiento', do remorço. 

Contudo, a atitude que devemos aplicar é a de Jesus, é a do perdão. Que é mais fácil? Perdoar ou viver com rancores? É mais fácil perdoar ou andar sempre a criar esquemas? Claro está que é mais fácil perdoar. Mas noutro trecho evangélico perguntam a Jesus: «Mestre, quantas vezes devemos perdoar? Até sete vezes?» e Jesus vai mais longe: «Não digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete», isto é, até ao infinito. Reconhecendo que os irmãos são pecadores como nós o somos, que caem na tentação do pecado, a única atitude válida é o perdão. A vida é um caminho de perdão...

Perdoando-nos a nós mesmos pelos nossos erros, reconciliando-nos com Deus, perdoando os irmãos. Há coisas verdadeiramente difíceis de perdoar, mas há que pensar: que queria eu se estivesse na situação do irmão? O nosso erro é cair no pecado original: não, nem sempre tem que ver com a sexualidade. O pecado original é querer ser como Deus!!!

Santo Aelredo de Rievaulx (sec. XII), um monge cisterciense, escreveu um dia acerca do pecado original:

«Ó infeliz Adão! Que procuravas tu para além da presença divina? Mas, ingrato, aí estás tu a ruminar o mal que fizeste: «Não, eu serei como Deus!» (cf Gn 3,5) Que orgulho intolerável! Acabas de ser feito de barro e de lodo e, na tua insolência, queres ser comparável a Deus? [...] Foi assim que o orgulho engendrou a desobediência, causa da nossa infelicidade. [...]
Que humildade poderia compensar tal orgulho? Que obediência de homem poderia redimir semelhante falta? Cativo, como poderia ele libertar um cativo? Impuro, poderia ele libertar um impuro? Meu Deus, irá então a vossa criatura perecer? «Ter-se-á Deus esquecido da sua compaixão, ou terá fechado com ira o seu coração?» (Sl 77,10) Oh, não! «Os desígnios que tenho acerca de vós [são] desígnios de prosperidade e não de calamidade», diz o Senhor (Jr 29,11). Apressa-Te então, Senhor: vem depressa! Vê as lágrimas dos pobres. Escuta, «chegue junto de Ti o gemido dos cativos» (Sl 79,11). Que tempo de felicidade, que dia amado e desejado surgirá quando a voz do Pai gritar: «Por causa da aflição dos humildes e dos gemidos dos pobres, Me levantarei» (Sl 12,6). [...] Sim, «Salva-nos, Senhor, pois cada vez há menos justos!» (Sl 12,2).»

Não queiramos ser Deus, mas reconheçamos a nossa fragilidade que é necessitada de perdão e da misericórdia de Deus, pois é sempre mais fácil perdoar...

Hoje, também, a Igreja celebra uma figura interessante do perdão e da misericórdia. Celebramos Santo Ambrósio, bispo de Milão. Nasceu no séc. IV, em Milão. Foi aclamado Bispo ainda quando era apenas um catecúmeno e, depois de alguma hesitação, Ambrósio acabou por aceitar. Governou a sua diocese com dedicação e os seus escritos foram de grande importância para a conversão de Santo Agostinho. 

Com o fim de organizar a liturgia da sua diocese, instaura um rito próprio, o «Rito Ambrosiano», assim chamado postumamente. Neste rito, Ambrósio parece dar extrema importância ao aspecto penitencial e da invocação da misericórdia de Deus, pois a introdução de 'Kyries' é grande. Depois do cântico de entrada, antes do glória, antes da comunhão e no final da missa. Talvez - pois não deixou nada escrito para justificar o rito - ele sabia da necessidade da misericórdia de Deus para os cristãos. 

Termino com as seguintes questões para reflexão:
Como anda a minha capacidade de perdão?
Sou capaz de perdoar, de todo o coração, ao irmão que me ofende?
Tenho presente que sou frágil e necessitado de perdão?
Aproximo-me do Senhor com confiança e de coração aberto?
Tenho aproveitado a graça do sacramento da Reconciliação?

Pax Christi.

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